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Nesses dias eu sento no beiral da janela que dá pra sacada, e a cidade me canta mais fria e cinza. Já faz uma semana desde que ela se foi, e eu, eu fiquei, agarrado ao violoncelo, desesperadamente dando arcadas no escuro, entregando todo meu amor, que agora é só dele, na forma de um som esganiçado.
Já faz uma semana que ela se foi, mas sobre mim sobrecarrega-se uma nuvem de meses de angústia, pesada e negra nebulosa que me encharca sem nunca ter chovido.
Sentado na sacada misturo-me ao dia cinza e frio que agora começa a tomar a cor amarelada das lâmpadas dos carros e postes. Carros cujo som intermitente de seus motores e buzinas me fazem distraído e alheio ao disco do segundo concerto para piano de Rachmaninoff que coloquei sem intenção alguma pouco antes de aqui estar. Distração de um emaranhado de sons e lembranças como um semi-transe que me levaram a deixar a caneta cair lá embaixo, na calçada agora já colorida do amarelo da noite urbana.
Com uma caneta de outra cor presto-me a terminar, como tudo, de maneira rápida e confusa para depois esquecer, dela que se foi, da caneta que certamente não estará mais lá e do fim, agora que fecho a janela e esqueço a nuvem cinza perdida ao cinza lá de fora.
Curitiba, 24 de junho de 2007
Mantenho um diálogo, indiferente ele me observa, não me parece o sinônimo de plenitude de ser, guarda tristeza nas linhas do corpo, suas expressões frente a minha imagem mostram-me que ele provavelmente vê o mesmo, me movimento, mantenho o mudo diálogo, ele debilmente tenta copiar, vejo que seus trejeitos aparentam uma perda do valor do tempo, ele esboça um sorriso, imediatamente sorrio também, creio que é para parecer menos descuidado, sim, descuidado é o que involuntariamente a imagem em minha frente me comunica, um descuido por conta de si mesmo, uma perda, como se deixado no tempo, esquecido do lado de fora por anos a fio pela criança que se foi e perdeu o interesse pelo brinquedo que já não lhe oferecia alegria. O diálogo do início agora já deixou de ser mantido, como que no vácuo, qualquer esboço de ação se perde sem som, ergo o rosto e notoriamente vejo que ele chora, um choro seco e abafado, desviando a atenção percebo que tenho o rosto percorrido por gotículas que saem abundantemente de meus olhos, deixando um caminho brilhante, como rastro de lesmas, choro também. Já incomodado das tantas pífias tentativas de decifrá-lo, livro-me da inércia que me prega ao chão sujo de tacos de madeira, dou as costas para o espelho e vou lavar o rosto.
Curitiba, 10 de junho de 2007.
Ele não tinha mais que rugas e um bigode amarelado, mas não era exatamente velho. O que o fazia velho era a saudade dos filhos que se soltaram cedo no mundo, depois que a mãe morreu e acharam que ele havia ficado louco. Justo ele, que era crédulo da loucura vir da falta do amor, da falta de alguém.
As teclas do piano batiam grossas e fortes na sua tristeza, grudadas como poeira úmida ao som seco de chuva em dia frio, produzido pelos velhos disco de Chopin, os mesmo que ela ouvia de semblante impassível, reconhecidas por ele desde o dia em que os dois se tornaram um ao som do piano. Os mesmos de notas marteladas em lembranças alegres e dolorosas.
Ela não tinha mais que longos cabelos ondulados e cheirosos, rosto rubro e amor, como o do piano. O mesmo que o encantara da primeira vez e o fizera marcado pela vida.
De entendimento de homem simples, sentia-se envergonhado pela disparidade, a via em toda pompa de moça criada a banho de cheiro e erudição passada de família.
A moça, de família importante, sentia-se intimidada pela simplicidade daquele homem que pouco depois a faria de felicidade e rosto rubro de amor latente eternos.
Morreu no leito onde, junto com o homem simples de traços tímidos, concebeu três crianças ao som daquele mesmo disco que agora ele terminava de ouvir com o rosto inchado e lavado de lágrimas doces de recordação de seu amor de piano.
Curitiba, 5 de junho de 2007
Sabe... a gente acorda dia mal, dia bem, dia triste, dia feliz.
Avalia errado, reavalia, fica nervoso, briga, chora, quebra, cansa, dorme.
Mas ama, ama mesmo e nunca desama.
E acorda dia mal amando, dia bem amando, dia triste amando, dia feliz amando.
Briga, chora, quebra, cansa, dorme amando.
E ama, ama mesmo e nunca desama.
* Texto deixado a uma grande amiga.
Apago mais uma merda de cigarro que já nem sinto o gosto depois daquele fumo de palha que comprei junto com um cachimbo vagabundo que fodeu minha garganta me deixando com aquela característica voz de velho de boteco de bigodes queimados e um fedor de casa de vó que fuma palheiro na soleira da porta recheando a casa de fumaça e enxarcando cortinas pesadas onde o sol passsa apartado começando a aquecer o quarto pela manhã quase do mesmo modo como assisto dia após dia sentido de expressão impotente a fumaça subir e grudar em cada peça de roupa e móvel que encontrar pela frente nesta casa suja onde sigo fodido mas feliz e acendo outra merda de cigarro que já nem sinto o gosto.
Curitiba, 17 de maio de 2007