26
de
fevereiro
Sonho de mãos de dedos entrelaçados
Acordava de manhã, o quarto ainda escuro da madrugada, os olhos remelentos semi-cerrados que doíam com o calor luminoso da lâmpada, o coração já palpitante, angustiado e de uma só certeza, de que o que precisava, já tinha. A sensação reconfortante da segurança de ter amor. Amor que, mesmo distante, acolchoava-o e esquentava-o por dentro.
As horas que ele fazia matar na espera do contato dela, eram horas esquecidas, mal tinha importância qualquer outro feito do dia, mas o momento em que ela lhe falava, esse lhe valia as horas, a angústia, a dor, a vida até ali.
Sua felicidade, era a dor de uma felicidade contida. Tinha completa noção da loucura do amar à distância, e de que essa distância era a geradora da dor, mas também sabia que era essa dor que havia esperado pelo tempo. Apertava a foto contra o peito.
Quando lhe faltava o calor da presença física, buscava exílio em uma sala escura com projeção qualquer, onde podia chorar baixinho o desejo de tê-la a seu lado a se contorcer em meio à gargalhadas com uma película do Buster Keaton.
No quarto úmido e escuro, encolhido entre os lençóis já não tão alvos de sua cama, imaginava os passeios que dariam quando ela chegasse, a pés descalços na grama de uma praça vazia qualquer, onde perderia sua mão dada à palma quente e suada do esperado amor.
Sua felicidade, era a dor de uma felicidade contida. Apertava a foto contra o peito, sentia o salgado no canto dos lábios, engolia o catarro quente do choro abafado, tinha certeza de que já tinha o que precisava.

