asco e nauseante

26

de
fevereiro

Sonho de mãos de dedos entrelaçados

Acordava de manhã, o quarto ainda escuro da madrugada, os olhos remelentos semi-cerrados que doíam com o calor luminoso da lâmpada, o coração já palpitante, angustiado e de uma só certeza, de que o que precisava, já tinha. A sensação reconfortante da segurança de ter amor. Amor que, mesmo distante, acolchoava-o e esquentava-o por dentro. 

As horas que ele fazia matar na espera do contato dela, eram horas esquecidas, mal tinha importância qualquer outro feito do dia, mas o momento em que ela lhe falava, esse lhe valia as horas, a angústia, a dor, a vida até ali.

Sua felicidade, era a dor de uma felicidade contida. Tinha completa noção da loucura do amar à distância, e de que essa distância era a geradora da dor, mas também sabia que era essa dor que havia esperado pelo tempo. Apertava a foto contra o peito.

Quando lhe faltava o calor da presença física, buscava exílio em uma sala escura com projeção qualquer, onde podia chorar baixinho o desejo de tê-la a seu lado a se contorcer em meio à gargalhadas com uma película do Buster Keaton.

No quarto úmido e escuro, encolhido entre os lençóis já não tão alvos de sua cama, imaginava os passeios que dariam quando ela chegasse, a pés descalços na grama de uma praça vazia qualquer, onde perderia sua mão dada à palma quente e suada do esperado amor.

Sua felicidade, era a dor de uma felicidade contida. Apertava a foto contra o peito, sentia o salgado no canto dos lábios, engolia o catarro quente do choro abafado, tinha certeza de que já tinha o que precisava.

20

de
fevereiro

Amor, recheio e vísceras

Era, aparentemente, igual aos outros. Miguel tinha vida fácil e cachos nos cabelos, e Luzia, a gata que era toda pompa. Moravam no grande apartamento, ele e a bichana, compartilhavam de suas vidas. Não se sabia ao certo quem cuidava de quem.

Por fora era uma esfera alongada de pêlos, por dentro era toda vísceras e coração, que mesmo enorme, só tinha espaço para Miguel, que era pequeno mas já havia se acostumado a habitar os grandes espaços. Se morassem Luzia, ele e uma galinha, logo não seria Miguel, nem caráter, nem amor, nem vida fácil, nem cachos nos cabelos.

Tinha por costume fazer das mazelas do mundo, suas benesses, já que, desde cedo aprendera sozinho a atenção que chamava e, na igreja, o bem que fazia o assistencialismo aos menos favorecidos. Não que quisesse ser amado por idolatria, pois tinha Luzia, e ela tinha a ele, nem mais uma galinha ou peça de mobília a mais. Mas agora tinha a impressão de que os pêlos da gata não eram mais suficientes para aquecer seu enorme coração, e ela ainda se refestelava no enorme espaço que lhe era dedicado.  

Andava garboso de sua pose, quando atirava moeda para mendigo, moleque e aleijado no ponto do ônibus, e Rita, vizinha da irmã do interior ficava sabendo, ele estufava o peito, e com isso preenchia as frestas que Luzia não dava conta.  

O apartamento que Miguel escolhera quando chegou na cidade era num alto andar de prédio, e onde a vista era para o longe e a grande janela arejava o espaçoso ambiente branco, onde dava menos saudade do interior. Luzia subia no beiral, caminhava por ali às vezes. 

Miguel agora comparecia menos, preocupado com a admiração alienada de Rita e o nome nos jornais. Luzia era agora toda tristeza, e o espaço reservado a ele era tomado somente pelas vísceras que recheavam o corpo do bichinho. 

O vento batia forte no beiral da grande janela no fim de tarde, e em passeio, Luzia que não tinha equilíbrio bom de gato, tomou vento vertiginoso e sentiu o último palpitar de amor, morava num alto andar de prédio. Agora vivem Miguel, Rita e uma galinha em um apartamento cheio de pêlos de gato.

15

de
fevereiro

Ternura de pés sujos

           Quando a mãe falava que ia limpar a casa, era sinal de que era pra ficar na rua o dia todo. Saía correndo, batendo portão, perdendo chinelo pelo caminho.

Não esperava um minuto pra chamar o resto da gurizada para brincar. Brincar. Não existia sentido certo pra essa palavra, ora correr no meio do mato, ora falar mentira, ora brigar, jurar ódio eterno e, minutos depois, amar de novo.

Voltava à noitinha, a casa cheirando à lavanda e, tivesse o azar de esquecer de tirar os sapatos. O banho, o calor do tecido fino da roupa, a comida, que era sempre algo diferente e a ternura do certo amor de mãe. 

* * * 

Chego à frente do espelho, vistas de perto, minhas sobrancelhas passam uma segurança inexistente que o tempo deveria ter trazido. Afasto-me, mas o pensamento, que já há algum tempo parece estar bem longe, faz com que a imagem que aparece no vidro prateado revele a dúvida que eu acredito ter me tornado, um híbrido de mim mesmo com o que o garotinho das brincadeiras inventadas aspirava ser. Percebo que nunca houve um EU homogêneo, que aquela imagem no espelho surgia sempre atrelada aos sonhos do menino das roupas de algodão limpo e do bolo de laranja no fim do sábado fatigante.

O guinchar dos pneus de um carro ao longe me faz voltar a mim. Agora o rosto no espelho aparece respingado de gordas e volumosas gotas de suor, com as costas das mãos enxugo o líquido salgado que jorra dos poros na minha testa. A fresta aberta entre as cortinas escuras deixa entrar uma intensa faixa quente e luminosa do incomum dia de inverno ensolarado, e deixa transparecer a poeira que desce, parada no tempo, do forro da velha casa de madeira, reforçando a impressão do ar parado em farelos.

Sentado agora na beirada da cama, calço os sapatos e, olhando a pele cascuda das canelas e as cicatrizes nos joelhos, me encharco com o ódio da lembrança de um passado pueril que tanto me faz sentir saudades de bolo de laranja.

6

de
fevereiro

Alegria de vida

A gente dorme porque tá cansado. Às vezes, quando tá sem sono, a gente dorme porque cansa de ficar deitado. E quando o despertador toca de manhã a gente quer dormir mais porque tá cansado de dormir, mas a gente levanta porque tá cansado de deitar e sonhar. E sai porque cansa de ficar em casa e volta porque cansa de ficar na rua e dorme porque cansa do dia-a-dia. E quando finalmente cansa de ficar cansado a gente dorme pra sempre.

2

de
fevereiro

Meu quarto mofado

Saí e desci as escadas, quente, apressado, calor… Na rua as pessoas andavam com uma pressa invejável. Eu, desde piá, vivia todo lentidão, dum jeito que quem me via logo tinha a impressão de um andar despreocupado em câmera lenta. A tremedeira havia passado há meia hora, mas aquele suor frio pós-febril ainda me sufocava, misturava-se com o calor desses dias de verão curitibano, me afogavam num caudaloso ar de prazer confuso.

O horário era de saída dos trabalhos, um viveiro pulsante de aranhas ou formigas que perderam sua casa, minha impressão era de que todos vinham e eu parecia ser o único que ia.

Há meses tenho tentado esquecer o sentido dessa cíclica rotina, tendo vivido esses oito meses daquele dinheiro que me entregaram quando fui embora do matadouro.

  

- É impossível cara, você ainda me acerta um tiro desses na testa, que mundo você vive? assim não vai dar.

 

Tinham semblantes de desespero, imploravam para que lhes desentupisse as goelas. O  ar baforento, um mingau de amido incolor, tornava meus movimentos um nado desesperado num fundo fosso.

A poeira se juntava com o suor escorrido dos cantos das alças dos meus chinelos, formando uma massa preta, uma cola em linhas contínuas.

Continuei andando até entrar naquele lugar, os semblantes desesperados dantes lá fora, agora me encaravam aqui, pareciam os mesmos. Uma epopéia era atravessar tudo aquilo, uma fumaça densa e o calor aumentado dez vezes. Um combate entre meus órgãos do sistema digestivo quando aquele cheiro de massa queimada golpeou minhas narinas com seus pelinhos eriçados.

Lá a frente uma mulher me olhava, tinha algumas rugas no canto inferior esquerdo da boca, que de longe eu já via, e que tremiam continuamente, diferente dos outros, seu semblante era de defesa, parecia esperar que eu caminhasse até ela e lhe desferisse quinze socos no estômago. Estava a poucos metros, meu suor frio e a tremedeira voltavam como quando eu saí daquele quarto mofado, mas continuava a passos firmes, o rosto daquela mulher, era minha angústia e meu medo, diante daqueles cinco passos restantes previamente calculados desde minha entrada naquele lugar.

Agora, quando pouco faltava, meus pés pareciam colar naquela massa preta das tiras do chinelo, absurda força eu fazia, trincava meu coração, me aproximei da mulher e de suas rugas palpitantes, abria a boca de uma forma que aparentava dificuldade, a saliva colando os lábios inferior e superior, a prévia de um escarro… sim, era o que parecia, abriu ainda mais a boca como que para tomar ar e vomitou meia dúzia de palavras, me assustando e me fazendo reagir imediatamente:

- O que deseja senhor?

- Seis pães.

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