2
de
fevereiro
Meu quarto mofado
Saí e desci as escadas, quente, apressado, calor… Na rua as pessoas andavam com uma pressa invejável. Eu, desde piá, vivia todo lentidão, dum jeito que quem me via logo tinha a impressão de um andar despreocupado em câmera lenta. A tremedeira havia passado há meia hora, mas aquele suor frio pós-febril ainda me sufocava, misturava-se com o calor desses dias de verão curitibano, me afogavam num caudaloso ar de prazer confuso.
O horário era de saída dos trabalhos, um viveiro pulsante de aranhas ou formigas que perderam sua casa, minha impressão era de que todos vinham e eu parecia ser o único que ia.
Há meses tenho tentado esquecer o sentido dessa cíclica rotina, tendo vivido esses oito meses daquele dinheiro que me entregaram quando fui embora do matadouro.
- É impossível cara, você ainda me acerta um tiro desses na testa, que mundo você vive? assim não vai dar.
Tinham semblantes de desespero, imploravam para que lhes desentupisse as goelas. O ar baforento, um mingau de amido incolor, tornava meus movimentos um nado desesperado num fundo fosso.
A poeira se juntava com o suor escorrido dos cantos das alças dos meus chinelos, formando uma massa preta, uma cola em linhas contínuas.
Continuei andando até entrar naquele lugar, os semblantes desesperados dantes lá fora, agora me encaravam aqui, pareciam os mesmos. Uma epopéia era atravessar tudo aquilo, uma fumaça densa e o calor aumentado dez vezes. Um combate entre meus órgãos do sistema digestivo quando aquele cheiro de massa queimada golpeou minhas narinas com seus pelinhos eriçados.
Lá a frente uma mulher me olhava, tinha algumas rugas no canto inferior esquerdo da boca, que de longe eu já via, e que tremiam continuamente, diferente dos outros, seu semblante era de defesa, parecia esperar que eu caminhasse até ela e lhe desferisse quinze socos no estômago. Estava a poucos metros, meu suor frio e a tremedeira voltavam como quando eu saí daquele quarto mofado, mas continuava a passos firmes, o rosto daquela mulher, era minha angústia e meu medo, diante daqueles cinco passos restantes previamente calculados desde minha entrada naquele lugar.
Agora, quando pouco faltava, meus pés pareciam colar naquela massa preta das tiras do chinelo, absurda força eu fazia, trincava meu coração, me aproximei da mulher e de suas rugas palpitantes, abria a boca de uma forma que aparentava dificuldade, a saliva colando os lábios inferior e superior, a prévia de um escarro… sim, era o que parecia, abriu ainda mais a boca como que para tomar ar e vomitou meia dúzia de palavras, me assustando e me fazendo reagir imediatamente:
- O que deseja senhor?
- Seis pães.


Comentário por Clarita — 2 de fevereiro de 2006 (16:43)
Sabe o que fede mesmo?
Fermento fleishman.
Comentário por Clarita the return — 2 de fevereiro de 2006 (16:46)
fleischmann aliás…
Nunca mais comerei pão.
Comentário por Diogo — 3 de fevereiro de 2006 (11:33)
nossa, adorei.
(não sei fazer um comentário mais interessante)