asco e nauseante

15

de
fevereiro

Ternura de pés sujos

           Quando a mãe falava que ia limpar a casa, era sinal de que era pra ficar na rua o dia todo. Saía correndo, batendo portão, perdendo chinelo pelo caminho.

Não esperava um minuto pra chamar o resto da gurizada para brincar. Brincar. Não existia sentido certo pra essa palavra, ora correr no meio do mato, ora falar mentira, ora brigar, jurar ódio eterno e, minutos depois, amar de novo.

Voltava à noitinha, a casa cheirando à lavanda e, tivesse o azar de esquecer de tirar os sapatos. O banho, o calor do tecido fino da roupa, a comida, que era sempre algo diferente e a ternura do certo amor de mãe. 

* * * 

Chego à frente do espelho, vistas de perto, minhas sobrancelhas passam uma segurança inexistente que o tempo deveria ter trazido. Afasto-me, mas o pensamento, que já há algum tempo parece estar bem longe, faz com que a imagem que aparece no vidro prateado revele a dúvida que eu acredito ter me tornado, um híbrido de mim mesmo com o que o garotinho das brincadeiras inventadas aspirava ser. Percebo que nunca houve um EU homogêneo, que aquela imagem no espelho surgia sempre atrelada aos sonhos do menino das roupas de algodão limpo e do bolo de laranja no fim do sábado fatigante.

O guinchar dos pneus de um carro ao longe me faz voltar a mim. Agora o rosto no espelho aparece respingado de gordas e volumosas gotas de suor, com as costas das mãos enxugo o líquido salgado que jorra dos poros na minha testa. A fresta aberta entre as cortinas escuras deixa entrar uma intensa faixa quente e luminosa do incomum dia de inverno ensolarado, e deixa transparecer a poeira que desce, parada no tempo, do forro da velha casa de madeira, reforçando a impressão do ar parado em farelos.

Sentado agora na beirada da cama, calço os sapatos e, olhando a pele cascuda das canelas e as cicatrizes nos joelhos, me encharco com o ódio da lembrança de um passado pueril que tanto me faz sentir saudades de bolo de laranja.

Arquivado em: Sem categoria I

4 Comentários »

  1. Comentário por déh — 15 de fevereiro de 2006 (15:20)

    diria, que vc é um ótimo contista.
    ashahiushiauhsia

  2. Comentário por theopi — 15 de fevereiro de 2006 (16:38)

    um “eu” homogêneo é quase inatingível - e bastante insípido.

  3. Comentário por Clá — 17 de fevereiro de 2006 (9:24)

    Comentado!

  4. Comentário por Sua admiradora secreta! — 17 de fevereiro de 2006 (18:42)

    Lindo! Lindo! Amo voce!!

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