20
de
fevereiro
Amor, recheio e vÃsceras
Era, aparentemente, igual aos outros. Miguel tinha vida fácil e cachos nos cabelos, e Luzia, a gata que era toda pompa. Moravam no grande apartamento, ele e a bichana, compartilhavam de suas vidas. Não se sabia ao certo quem cuidava de quem.
Por fora era uma esfera alongada de pêlos, por dentro era toda vísceras e coração, que mesmo enorme, só tinha espaço para Miguel, que era pequeno mas já havia se acostumado a habitar os grandes espaços. Se morassem Luzia, ele e uma galinha, logo não seria Miguel, nem caráter, nem amor, nem vida fácil, nem cachos nos cabelos.
Tinha por costume fazer das mazelas do mundo, suas benesses, já que, desde cedo aprendera sozinho a atenção que chamava e, na igreja, o bem que fazia o assistencialismo aos menos favorecidos. Não que quisesse ser amado por idolatria, pois tinha Luzia, e ela tinha a ele, nem mais uma galinha ou peça de mobília a mais. Mas agora tinha a impressão de que os pêlos da gata não eram mais suficientes para aquecer seu enorme coração, e ela ainda se refestelava no enorme espaço que lhe era dedicado.
Andava garboso de sua pose, quando atirava moeda para mendigo, moleque e aleijado no ponto do ônibus, e Rita, vizinha da irmã do interior ficava sabendo, ele estufava o peito, e com isso preenchia as frestas que Luzia não dava conta.
O apartamento que Miguel escolhera quando chegou na cidade era num alto andar de prédio, e onde a vista era para o longe e a grande janela arejava o espaçoso ambiente branco, onde dava menos saudade do interior. Luzia subia no beiral, caminhava por ali às vezes.
Miguel agora comparecia menos, preocupado com a admiração alienada de Rita e o nome nos jornais. Luzia era agora toda tristeza, e o espaço reservado a ele era tomado somente pelas vísceras que recheavam o corpo do bichinho.
O vento batia forte no beiral da grande janela no fim de tarde, e em passeio, Luzia que não tinha equilíbrio bom de gato, tomou vento vertiginoso e sentiu o último palpitar de amor, morava num alto andar de prédio. Agora vivem Miguel, Rita e uma galinha em um apartamento cheio de pêlos de gato.


Comentário por deusqueramor — 20 de fevereiro de 2006 (14:28)
gostei do finalzinho
Comentário por theopi — 22 de fevereiro de 2006 (23:33)
parece que todo fim começa com as frestas, as migalhas e as gotinhas que caem sem querer.