asco e nauseante

23

de
março

Cura do milagreiro

Não conseguia entender porque Chico era forte daquele jeito. Forte por dentro, não tinha furúnculo nem gripe, porque por fora era couro e osso. Ele me olhava e ria – Gente da cidade quando anda descalço e pega sereno é igual chopim-vira-bosta quando a gente enfia na gaiola, dá linhaça, ele tonteia, morre -  e ria mostrando os três dentes da frente que lhe sobravam na boca larga equilibrada no queixo fino.  

Eu era pequeno e ouvia a vó dizer que gente que come terra tem sangue grosso e escuro, difícil era a tuberculose pegar. Queria perguntar pro Chico se terra tinha gosto bom, mas podia ser mentira da vó. E ele ria, e levantava da cadeira de palha, e saracoteava com o rádio.

Começo de inverno, o ventinho entrava por entre os botões da camisa e eu já sucumbia à cama. Era xarope, pastilha, mel-de-abelha-real, três dias de atestado. E lembrava das conversas que escutava na casa do Chico – Toma caldo de sopa de palma atrás da porta que sara até soluço – Se fosse dono de fábrica de remédio eu contrataria alguém só pra ouvir as conversas naquela casa.

Me ligaram ontem, eu estava tomando banho, fazendo a barba. Alegria é morar sozinho e ter um rádio de pilha pra pôr no banheiro.

- Alô, Valmir? Aqui é o Saulo, primo do Chico. Escuta, tem que vir pra cá, tu vai morrer de tristeza. É, aconteceu, eu nunca que imaginava.

Cinco horas e meia de ônibus, e uma coxinha com sukita na parada. A casinha era simples que me dava pena, mas o pessoal devia é ter pena de mim com aquele rosto amarelado de luz de escritório. Uma fila que andava lenta entrava numa das portas, passava ao lado do finado, fungava o cheiro forte de cravo e lírio e saía meio que chorando, meio agradecendo o descanso merecido.

Dentro do caixão ele parecia o de sempre, cheio de saúde, de pele grossa intransponível. Segui pela fila atrás das velhinhas curvadas que pareciam passar dos 150 anos, o coração apertado, fui cumprimentar os parentes, cheguei até o Chico que chorava contido do mesmo jeito que ria com os três dentes.

- Vô Abelardo que era o mais forte da família, não tinha nem osso ruim de velho ainda, mas não inventaram chá pra desviar a vontade do que cria. Dormiu na rede com a dentadura, sorrindo, não acordou.

17

de
março

A parte mais difícil é dar o título

           Ele acendeu um cigarro e se jogou na poltrona de corvim. Eu sempre achei que esse ritual cumprido religiosamente quando ia lá em casa lhe dava um ar de seriedade. Ele tragava, e me encarava, com muita sinceridade no olhar em meio àquela fumaça toda.

- Não gosto do que tu escreve, é ruim.

Na verdade eu mesmo nunca gostei do que escrevo, mas expliquei pra ele que minha mãe achava formidável, ela mostrava para as amigas no trabalho, os amontoados de linhas do filho boca-suja. Mesmo que ela só goste desses livrinhos de romance água-com-açúcar brochura pra passar o tempo.

- É verdade, teus contos são uma bosta, fraco e sem nexo.

Desde que comecei a escrever eu escrevo contos, mas sempre me auto-intitulei cronista, sempre quis ser cronista, meus amigos achavam que eu era cronista, mas acontece que só escrevo contos, e fracos. É um tanto desanimador escrever crônicas pra ficar lendo sozinho no quarto. Talvez se eu publicasse essas porcarias num jornal de ocorridos sanguinolento do interior eu me desse mais o respeito, ou ele me respeitasse mais.

- O Vinícius ia rir da tua cara!

Na verdade eu não ligaria se o Vinícius me achasse medíocre, porque com certeza ele viria rindo com uma garrafa de whisky na mão e cairia antes de me falar qualquer coisa.

Ele continuava baforando a fumaça na minha cara e me contando como a irmã dele de sete anos faz redações na escola melhores que aquilo. Eu levantei e coloquei a água no fogo para fazer um café, antes de a água começar a ferver ele sugou uns dois centímetros do bastãozinho de fumo incandescente, amassou no cinzeiro, ainda me encarando com aquela seriedade e sinceridade que dão um certo medo.

- Falou cara, tenho que buscar minha irmã.

- Até.

Ele foi embora, eu fiquei, enchi o copo de café, adocei muito, horrível, muito fraco e melado. Peguei umas crônicas do velho Braga pra estudar, meus amigos ainda acham que eu sou cronista.

13

de
março

Uma alegria e a epopéia do lixo

Caminhava pensando que seria melhor viver na época quando as ruas ainda não cheiravam à bosta, quando as pessoas não disfarçavam seu cheiro de vinagre com cheiros ainda piores, doces e enjoativos, quando o ar não carregava a explosão de motores. Pensava por pensar, lembrava que ia pro sítio, sentia-se sufocado com o ar gelado e leve e vazio demais que irritava as narinas e não lhe enchia os pulmões, era desacostumado. Prestava atenção também nos milhares de chicletes grudados na calçada, um céu estrelado multicolorido, e no que devia estar pensando seu dono no exato momento em que o mascava e o cuspia fora, e que sabor teria sua saliva, e que cheiro seu hálito, que tipo de pessoa ou ainda há quantos anos aquilo já estaria grudado ali, e na possibilidade que talvez a nonagésima geração do antigo proprietário passaria por ali pisando indiferente em sua herança. 

Fazia desses delírios multifacetados, a porta de escape do cotidiano. Já não lhe chamavam a atenção os rostos, vozes e trejeitos. Olhou o termômetro que estampava uma propaganda de um açougue, “Sorriso Bovino”, ele marcava trinta e dois graus, voltou seu olhar para o lado oposto e recebeu o choque, como que um tapa da mão espalmada no rosto, lufada de vento gelado. 

Ela parecia alheia a todo aquele alvoroço, se agachava para catar as latas de refrigerante, as amassava e colocava num saco igual a esses de cebola. Tinha uma pele encardida e escura de sol, estava vestida com uma calça de agasalho cortada acima do joelho, uma camiseta com uns oitenta furos, imunda, onde com certa dificuldade podia se ler “Jesus Cristo é o senhor”. Um chinelo de borracha fino muito gasto de tiras azuis que lhe protegia debilmente os pés cascudos de unhas trincadas e pretas das latas que amassava. 

De imediato ele era vomitado de seus devaneios para o ar quente e a poeira seca que agora arranhava sua garganta e lhe dava a mesma sensação de desproteção do respirar no sítio. Via-se sem reação olhando aqueles movimentos calculados no outro lado da rua, aquele ser maltratado e feio, sequer podia atrelar sua imagem à de uma mulher, que apanhava e amassava as latas como um perito laboratorial, cuidadosa, completamente imersa no ofício. 

Seu cabelo era duro e repuxado com grossa camada de sebo e sujeira grudada e seca, seria impossível enfiar pente ali. Usava cravado naqueles grossos fios que pareciam arame comido por ferrugem uma diadema ou algo parecido com uma grinalda, que certamente havia achado em alguma lixeira, e lhe provia um detalhe belo, contrastante com todo o resto. Não que não fosse nem um pouco bonita, mas os dentes muito amarelados e podres, a boca purulenta e os dedos de pontas comidas lhe faziam uma imagem desagradável de admirar. 

A sensação sufocante que tinha agora se assemelhava com a de comer pudim até enjoar e a garganta arder, o prazer atrelado ao enjôo crônico. Observava atônito, com arrepios e tiques de lascívia, apesar de aquilo que via não ser uma imagem muito voluptuosa. Tinha a estranha necessidade. Já tinha sido casado, cinco anos sem amor ou bolinhos de chuva no café da tarde, e tentava comparar os espasmos de agora com qualquer coisa vivida nos cinco anos que passou ao lado daquela estranha que o papel dizia ser sua esposa, não encontrou nada parecido. Tinha aquela estranha necessidade inidentificável. Passaram-lhe idéias aos milhares pela cabeça estofada de miolos, usou a que melhor lhe ocorreu. Seria simples, caminhar alguns metros pelo asfalto escaldante, passar pela espécie de balaustrada de ferro que dividia a rua do passeio dos pedestres e esbarrar nela. E após a inevitável sessão de escusas, teria motivos e pretextos. 

Atravessou a rua, anos poderiam ter passado naquela travessia, com convicção na testa franzida alcançou o meio-fio oposto. Parou a fim de planejar um pouco mais, estudar a estratégia, talvez melhorá-la, mas não podia demorar muito, ela já amassava a última lata. Escorreu uma gota de suor que lhe parecia gelado, andou um pouco mais rápido, e sem muita pressão esbarrou naquele corpo quente e de perto um tanto fétido e esperou a reação para poder, a partir dali, iniciar a longa conversa que duraria anos. Ela se restabeleceu nos chinelos, retomando o equilíbrio, hesitou por um instante, virou-se e ele pôde sentir sua baforada no rosto: 

-Vai tomar no cu cara! 

1

de
março

Felicidade escorrida no óleo quente

Tinha andado sem rumo o fim de semana todo, sem qualquer sinal de cansaço, ou rastro de preocupação para segunda. Não trabalhava há uns oito meses, não por não achar emprego, mas não encontrava espaço na cabeça para trabalhar, ter um número, um carimbo, uma mesa, existir.

Caminhava agora por uma rua secundária, umas quadras abaixo do miolo do centro histórico, as casas tinham as fachadas-padrão da arquitetura eclética dos anos 30 ainda conservadas. O limbo e os fungos também pareciam padronizados, bastante avançados, brotando das rachaduras e cobrindo as sobreposições de décadas de mãos de tinta. Deslizando sobre a viscosa calçada de paralelepípedos úmida, passei em frente ao que parecia um respeitoso cortiço familiar, o cheiro vindo da janela aberta me remeteu à casa de minha avó, minha memória tilintava. Fumo velho, fritura, bolor de pão-de-centeio e colcha mofada no fundo de um armário de cerejeira. 

Não sabia ao certo o que fazia ali, ou o que faria depois, ou sequer se cansaria. Tinha comido uma fatia de pão e uns três goles de café requentado, mas já passavam das seis da tarde. Mais quinze minutos e eu pousava no fétido e encardido calçadão, onde se amontoavam um punhado de lojas de armarinhos, todas fechadas naquele canto morto da cidade no domingo, pequenas galerias, que guardavam mais dezenas de outras lojinhas de muamba de notas-frias, e uma infinidade de lanchonetes e pastelarias, entrei em uma delas. A pastelaria também parecia seguir um padrão universal de pastelarias, dessas muito compridas e estreitas, onde a sensação é de que as paredes vão se fechar e te esmagar, como naqueles calabouços medievais. Os donos e funcionários desses lugares parecem saídos de uma explosão populacional asiática que espalhou gente de olhos puxados pelo mundo, imagino que deve haver um buraco negro onde eles são sugados lá do outro lado do planeta, e são cuspidos nessas pastelarias e lanchonetes já montadas e imundas no Brasil. 

Pedi três pastéis e uma tubaína e, já certo da demora, comecei a devanear e tentar decifrar o significado dos símbolos que pareciam montar uma frase no calendário atrás da caixa-registradora, onde o funcionário japonês-coreano-chinês-malaio me encarava com total indiferença. No rádio ligado em uma FM qualquer, tocava Pepeu Gomes, no canto dos meus lábios algo entre um risinho malicioso e uma gargalhada contida. Os pastéis chegaram e com uma força débil apanhei, com meus dedos imundos, o primeiro  da pequena gamela, rasgando-o ao meio e reparando que a densa sujeira que jazia embaixo das minhas unhas muito se assemelhava com aquela carne-moída insípida do pastel quase vazio. 

Enfiei o último pedaço na goela e, de um gole só, matei a tubaína. Limpei os dedos na calça, logo abaixo do bolso, já aproveitando para pegar o dinheiro e pagar a conta. O rapaz do caixa me agradeceu com um tímido muitu obigadu e eu saí. Hesitei por um instante, a garoa voltara, resolvi caminhar, pensar, resolver minha vida. Talvez semana que vem eu arrume um trabalho, ou vá visitar minha avó. 

Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://ascoenauseante.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o serviço e siga participando do Terra Blog.