asco e nauseante

1

de
março

Felicidade escorrida no óleo quente

Tinha andado sem rumo o fim de semana todo, sem qualquer sinal de cansaço, ou rastro de preocupação para segunda. Não trabalhava há uns oito meses, não por não achar emprego, mas não encontrava espaço na cabeça para trabalhar, ter um número, um carimbo, uma mesa, existir.

Caminhava agora por uma rua secundária, umas quadras abaixo do miolo do centro histórico, as casas tinham as fachadas-padrão da arquitetura eclética dos anos 30 ainda conservadas. O limbo e os fungos também pareciam padronizados, bastante avançados, brotando das rachaduras e cobrindo as sobreposições de décadas de mãos de tinta. Deslizando sobre a viscosa calçada de paralelepípedos úmida, passei em frente ao que parecia um respeitoso cortiço familiar, o cheiro vindo da janela aberta me remeteu à casa de minha avó, minha memória tilintava. Fumo velho, fritura, bolor de pão-de-centeio e colcha mofada no fundo de um armário de cerejeira. 

Não sabia ao certo o que fazia ali, ou o que faria depois, ou sequer se cansaria. Tinha comido uma fatia de pão e uns três goles de café requentado, mas já passavam das seis da tarde. Mais quinze minutos e eu pousava no fétido e encardido calçadão, onde se amontoavam um punhado de lojas de armarinhos, todas fechadas naquele canto morto da cidade no domingo, pequenas galerias, que guardavam mais dezenas de outras lojinhas de muamba de notas-frias, e uma infinidade de lanchonetes e pastelarias, entrei em uma delas. A pastelaria também parecia seguir um padrão universal de pastelarias, dessas muito compridas e estreitas, onde a sensação é de que as paredes vão se fechar e te esmagar, como naqueles calabouços medievais. Os donos e funcionários desses lugares parecem saídos de uma explosão populacional asiática que espalhou gente de olhos puxados pelo mundo, imagino que deve haver um buraco negro onde eles são sugados lá do outro lado do planeta, e são cuspidos nessas pastelarias e lanchonetes já montadas e imundas no Brasil. 

Pedi três pastéis e uma tubaína e, já certo da demora, comecei a devanear e tentar decifrar o significado dos símbolos que pareciam montar uma frase no calendário atrás da caixa-registradora, onde o funcionário japonês-coreano-chinês-malaio me encarava com total indiferença. No rádio ligado em uma FM qualquer, tocava Pepeu Gomes, no canto dos meus lábios algo entre um risinho malicioso e uma gargalhada contida. Os pastéis chegaram e com uma força débil apanhei, com meus dedos imundos, o primeiro  da pequena gamela, rasgando-o ao meio e reparando que a densa sujeira que jazia embaixo das minhas unhas muito se assemelhava com aquela carne-moída insípida do pastel quase vazio. 

Enfiei o último pedaço na goela e, de um gole só, matei a tubaína. Limpei os dedos na calça, logo abaixo do bolso, já aproveitando para pegar o dinheiro e pagar a conta. O rapaz do caixa me agradeceu com um tímido muitu obigadu e eu saí. Hesitei por um instante, a garoa voltara, resolvi caminhar, pensar, resolver minha vida. Talvez semana que vem eu arrume um trabalho, ou vá visitar minha avó. 

Arquivado em: Sem categoria I

1 Comentário »

  1. Comentário por theopi — 4 de março de 2006 (15:01)

    requentando as esperanças pra segunda-feira.

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