asco e nauseante

13

de
março

Uma alegria e a epopéia do lixo

Caminhava pensando que seria melhor viver na época quando as ruas ainda não cheiravam à bosta, quando as pessoas não disfarçavam seu cheiro de vinagre com cheiros ainda piores, doces e enjoativos, quando o ar não carregava a explosão de motores. Pensava por pensar, lembrava que ia pro sítio, sentia-se sufocado com o ar gelado e leve e vazio demais que irritava as narinas e não lhe enchia os pulmões, era desacostumado. Prestava atenção também nos milhares de chicletes grudados na calçada, um céu estrelado multicolorido, e no que devia estar pensando seu dono no exato momento em que o mascava e o cuspia fora, e que sabor teria sua saliva, e que cheiro seu hálito, que tipo de pessoa ou ainda há quantos anos aquilo já estaria grudado ali, e na possibilidade que talvez a nonagésima geração do antigo proprietário passaria por ali pisando indiferente em sua herança. 

Fazia desses delírios multifacetados, a porta de escape do cotidiano. Já não lhe chamavam a atenção os rostos, vozes e trejeitos. Olhou o termômetro que estampava uma propaganda de um açougue, “Sorriso Bovino”, ele marcava trinta e dois graus, voltou seu olhar para o lado oposto e recebeu o choque, como que um tapa da mão espalmada no rosto, lufada de vento gelado. 

Ela parecia alheia a todo aquele alvoroço, se agachava para catar as latas de refrigerante, as amassava e colocava num saco igual a esses de cebola. Tinha uma pele encardida e escura de sol, estava vestida com uma calça de agasalho cortada acima do joelho, uma camiseta com uns oitenta furos, imunda, onde com certa dificuldade podia se ler “Jesus Cristo é o senhor”. Um chinelo de borracha fino muito gasto de tiras azuis que lhe protegia debilmente os pés cascudos de unhas trincadas e pretas das latas que amassava. 

De imediato ele era vomitado de seus devaneios para o ar quente e a poeira seca que agora arranhava sua garganta e lhe dava a mesma sensação de desproteção do respirar no sítio. Via-se sem reação olhando aqueles movimentos calculados no outro lado da rua, aquele ser maltratado e feio, sequer podia atrelar sua imagem à de uma mulher, que apanhava e amassava as latas como um perito laboratorial, cuidadosa, completamente imersa no ofício. 

Seu cabelo era duro e repuxado com grossa camada de sebo e sujeira grudada e seca, seria impossível enfiar pente ali. Usava cravado naqueles grossos fios que pareciam arame comido por ferrugem uma diadema ou algo parecido com uma grinalda, que certamente havia achado em alguma lixeira, e lhe provia um detalhe belo, contrastante com todo o resto. Não que não fosse nem um pouco bonita, mas os dentes muito amarelados e podres, a boca purulenta e os dedos de pontas comidas lhe faziam uma imagem desagradável de admirar. 

A sensação sufocante que tinha agora se assemelhava com a de comer pudim até enjoar e a garganta arder, o prazer atrelado ao enjôo crônico. Observava atônito, com arrepios e tiques de lascívia, apesar de aquilo que via não ser uma imagem muito voluptuosa. Tinha a estranha necessidade. Já tinha sido casado, cinco anos sem amor ou bolinhos de chuva no café da tarde, e tentava comparar os espasmos de agora com qualquer coisa vivida nos cinco anos que passou ao lado daquela estranha que o papel dizia ser sua esposa, não encontrou nada parecido. Tinha aquela estranha necessidade inidentificável. Passaram-lhe idéias aos milhares pela cabeça estofada de miolos, usou a que melhor lhe ocorreu. Seria simples, caminhar alguns metros pelo asfalto escaldante, passar pela espécie de balaustrada de ferro que dividia a rua do passeio dos pedestres e esbarrar nela. E após a inevitável sessão de escusas, teria motivos e pretextos. 

Atravessou a rua, anos poderiam ter passado naquela travessia, com convicção na testa franzida alcançou o meio-fio oposto. Parou a fim de planejar um pouco mais, estudar a estratégia, talvez melhorá-la, mas não podia demorar muito, ela já amassava a última lata. Escorreu uma gota de suor que lhe parecia gelado, andou um pouco mais rápido, e sem muita pressão esbarrou naquele corpo quente e de perto um tanto fétido e esperou a reação para poder, a partir dali, iniciar a longa conversa que duraria anos. Ela se restabeleceu nos chinelos, retomando o equilíbrio, hesitou por um instante, virou-se e ele pôde sentir sua baforada no rosto: 

-Vai tomar no cu cara! 

Arquivado em: Sem categoria I

2 Comentários »

  1. Comentário por marly — 16 de março de 2006 (15:25)

    foi vc quem escreveu?
    ameiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

  2. Comentário por deusqueramor — 16 de março de 2006 (16:04)

    gosto dos agentes ecológicos, mas, de fato, eles são feios em sua grande maioria.

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