1
de
abril
Protesto de velho
Cresci e agora tenho pêlos nas falanges dos dedos. Hálito de ontem, insegurança, feridas na pele escura cheia de manchas do rosto, barba mal-feita, olhar cansado, roupas amarrotadas, velhas, rasgadas, gastas. Escrevo com tantas vírgulas e me perco para depois alguém ler e criticar a falta de didática de meu texto. Escrevo com muitas vírgulas depois de semanas sem sequer ter algo entre todos estes sinais.
Tenho caminhado pela cidade sem muita desculpa ou motivo, ou cansaço muscular, com um buraco na sola do tênis do pé esquerdo por onde entra água todos os dias e encarde minha meia de muitos anos, tentando achar ânimo para comprar meias com elásticos ou forma de ganhar dinheiro e comprar sapatos. Pegando ônibus. Tentando tirar coisa que preste dessa cabeça para encher algumas linhas, falta sinceridade, papel e mão para escrever.
Pegando ônibus. Ontem, o senhor com forte bafo de cachaça, no ônibus cheio me perguntou se eu tinha pai – Sim, tenho – já esperando alguma longa conversa idosa e lembranças de juventude – Então vai roçar essa perna nele, entendeu? Sou velho mas tenho muita hombridade, trabalhei a vida inteira, vai roçar essa perna naquele veado, entendeu? – calei, mas sentia que ele ainda me olhava, ele começou outro diálogo qualquer com o cobrador e me perdi na tristeza da aspiração e no medo de ter setenta anos e ver os pêlos das falanges dos meus dedos brancos e ter de engolir cachaça pura pra manter amortecida a cabeça velha e não lembrar que não houve a vida que eu esperava ter, a vida que eu via todos terem, que esperavam que eu tivesse. Não ter de amargar a falta de lugares no ônibus, e sentir que é o único contento de alguém que já viveu setenta anos espera.
Escrevo com muitas vírgulas mal postas textos ruins de caráter lúgubre fingido e vadio. Da morte inexistente do covarde. E observo contidamente desesperado a aparência emética de minha mesa imunda, e já com náusea o cheiro do resto frio do café no copo de requeijão.
Levanto para ir ao banheiro enfiar a cara na pia e acordar e limpar remelas de dias sem sono e tentativas de escrever, frustração e péssimos resultados. Olho o espelho, o rosto molhado, a água que não fixa na pele oleosa, e os vincos nos cantos da boca que dão esse semblante taciturno mesmo na felicidade. Acho que vou me frustar até o dia em que aprender a fechar crônicas vagabundas sem ter de alongar com banalidades desse cotidiano mecanizado e vazio.

