asco e nauseante

24

de
junho

A respeito do dia

   Nesses dias eu sento no beiral da janela que dá pra sacada, e a cidade me canta mais fria e cinza. Já faz uma semana desde que ela se foi, e eu, eu fiquei, agarrado ao violoncelo, desesperadamente dando arcadas no escuro, entregando todo meu amor, que agora é só dele, na forma de um som esganiçado.
   Já faz uma semana que ela se foi, mas sobre mim sobrecarrega-se uma nuvem de meses de angústia, pesada e negra nebulosa que me encharca sem nunca ter chovido.
   Sentado na sacada misturo-me ao dia cinza e frio que agora começa a tomar a cor amarelada das lâmpadas dos carros e postes. Carros cujo som intermitente de seus motores e buzinas me fazem distraído e alheio ao disco do segundo concerto para piano de Rachmaninoff que coloquei sem intenção alguma pouco antes de aqui estar. Distração de um emaranhado de sons e lembranças como um semi-transe que me levaram a deixar a caneta cair lá embaixo, na calçada agora já colorida do amarelo da noite urbana.
   Com uma caneta de outra cor presto-me a terminar, como tudo, de maneira rápida e confusa para depois esquecer, dela que se foi, da caneta que certamente não estará mais lá e do fim, agora que fecho a janela e esqueço a nuvem cinza perdida ao cinza lá de fora.

Curitiba, 24 de junho de 2007

10

de
junho

Revérbero

   Mantenho um diálogo, indiferente ele me observa, não me parece o sinônimo de plenitude de ser, guarda tristeza nas linhas do corpo, suas expressões frente a minha imagem mostram-me que ele provavelmente vê o mesmo, me movimento, mantenho o mudo diálogo, ele debilmente tenta copiar, vejo que seus trejeitos aparentam uma perda do valor do tempo, ele esboça um sorriso, imediatamente sorrio também, creio que é para parecer menos descuidado, sim, descuidado é o que involuntariamente a imagem em minha frente me comunica, um descuido por conta de si mesmo, uma perda, como se deixado no tempo, esquecido do lado de fora por anos a fio pela criança que se foi e perdeu o interesse pelo brinquedo que já não lhe oferecia alegria. O diálogo do início agora já deixou de ser mantido, como que no vácuo, qualquer esboço de ação se perde sem som, ergo o rosto e notoriamente vejo que ele chora, um choro seco e abafado, desviando a atenção percebo que tenho o rosto percorrido por gotículas que saem abundantemente de meus olhos, deixando um caminho brilhante, como rastro de lesmas, choro também. Já incomodado das tantas pífias tentativas de decifrá-lo, livro-me da inércia que me prega ao chão sujo de tacos de madeira, dou as costas para o espelho e vou lavar o rosto.

Curitiba, 10 de junho de 2007.

6

de
junho

Irrefutabilidade

   Ele não tinha mais que rugas e um bigode amarelado, mas não era exatamente velho. O que o fazia velho era a saudade dos filhos que se soltaram cedo no mundo, depois que a mãe morreu e acharam que ele havia ficado louco. Justo ele, que era crédulo da loucura vir da falta do amor, da falta de alguém.
   As teclas do piano batiam grossas e fortes na sua tristeza, grudadas como poeira úmida ao som seco de chuva em dia frio, produzido pelos velhos disco de Chopin, os mesmo que ela ouvia de semblante impassível, reconhecidas por ele desde o dia em que os dois se tornaram um ao som do piano. Os mesmos de notas marteladas em lembranças alegres e dolorosas.
   Ela não tinha mais que longos cabelos ondulados e cheirosos, rosto rubro e amor, como o do piano. O mesmo que o encantara da primeira vez e o fizera marcado pela vida.
   De entendimento de homem simples, sentia-se envergonhado pela disparidade, a via em toda pompa de moça criada a banho de cheiro e erudição passada de família.
   A moça, de família importante, sentia-se intimidada pela simplicidade daquele homem que pouco depois a faria de felicidade e rosto rubro de amor latente eternos.
   Morreu no leito onde, junto com o homem simples de traços tímidos, concebeu três crianças ao som daquele mesmo disco que agora ele terminava de ouvir com o rosto inchado e lavado de lágrimas doces de recordação de seu amor de piano.

Curitiba, 5 de junho de 2007

6

de
junho

A inexpressão do habitual

Apago mais uma merda de cigarro que já nem sinto o gosto depois daquele fumo de palha que comprei junto com um cachimbo vagabundo que fodeu minha garganta me deixando com aquela característica voz de velho de boteco de bigodes queimados e um fedor de casa de vó que fuma palheiro na soleira da porta recheando a casa de fumaça e enxarcando cortinas pesadas onde o sol passsa apartado começando a aquecer o quarto pela manhã quase do mesmo modo como assisto dia após dia sentido de expressão impotente a fumaça subir e grudar em cada peça de roupa e móvel que encontrar pela frente nesta casa suja onde sigo fodido mas feliz e acendo outra merda de cigarro que já nem sinto o gosto.

Curitiba, 17 de maio de 2007

6

de
junho

Confessionário

   Andei, sala, cozinha, banheiro, abri, fechei, procurei, me escondi. No canto extremo do quarto, debaixo da janela, com uma esferográfica de ponta quebrada e mastigada e um caderno brochura onde encontrei algumas folhas limpas comecei: "Andei, sala, cozinha, banheiro, abri, fechei, procurei, me escondi."

   Me forço a acreditar nesses cadernos um confessionário onde eu me conte a verdade, como um bilhete de despedida que serve como prova material da ida dolorosa. Mesmo cansado desse caráter pessoal impresso propositalmente em tudo que sai dessas fugas para escrever, talvez pelo simples fato de não ter uma boa história pra contar.

   Leio todas elas, e todas já foram descritas esmiuçadamente de todas as formas que a minha língua pátria, qual mal conheço, e todas as outras puderam escrever. Mas ainda acredito que não há boa história a se contar sem amor pelo que se enfia no papel. Talvez o motivo das fugas para se "confessar".

21

de
dezembro

Obrigado!

"Protesto de Velho" foi um dos contos vencedores do 1º Concurso de Contos Ler & Cia.

Meu sincero Muito Obrigado a todos que frequentam o blog, e aos que apreciam os contos e crônicas!

 

:D

17

de
dezembro

Ontem e ano retrasado

Acordo, sento na beirada, está escuro, cheira a mofo, estou fedendo, cerveja, lágrima, suor, cigarro, cinco minutos, acendo a luz, amarela, 40W, descalço, sujo, triste, mais velho e maquiado de falta de expectativas para que você que me olha morra de pena e chore em meu ombro para que eu chore no seu podendo assim manter algum vínculo até eu me despedir dizendo que preciso ir para casa depois de cinco dias na rua sem sequer comer algo que preste ou tomar banho para me livrar desse cheiro ou dessas suas falsas lágrimas que você jorrou para manter algum vínculo para depois se despedir e não voltar.
O centro, um bar sujo, um dono chinês, alguns amigos, carteiras de cigarro amassadas no bolso traseiro, vodka barata, algumas vagabundas, sair do bar, ir pra algum canto, luz de mercúrio, mendigos em caixas de papelão, andar fatigado, chegar, amortecer a cabeça, escape barato.
Acordo, sento na beirada, está escuro, cheira a mofo, andar leso de escape barato, banheiro sujo, lâmpada falhando, choro e lembro do antigo amor que ainda sustento após anos mas ainda assim me faz completo e morno da forma como fazia quando ainda nos abraçávamos e trocávamos juras e eu ainda não tinha essa cara repleta de vincos que as noites de bares e vodka barata e cabeça amortecida trouxeram depois desses vários anos que tento fugir do amor antigo que ainda sustento abaixo de tudo isso para que não tenha que engolir lágrimas pra dentro do meu peito morno que ainda está repleto de você.

1

de
abril

Protesto de velho

Cresci e agora tenho pêlos nas falanges dos dedos. Hálito de ontem, insegurança, feridas na pele escura cheia de manchas do rosto, barba mal-feita, olhar cansado, roupas amarrotadas, velhas, rasgadas, gastas. Escrevo com tantas vírgulas e me perco para depois alguém ler e criticar a falta de didática de meu texto. Escrevo com muitas vírgulas depois de semanas sem sequer ter algo entre todos estes sinais.

Tenho caminhado pela cidade sem muita desculpa ou motivo, ou cansaço muscular, com um buraco na sola do tênis do pé esquerdo por onde entra água todos os dias e encarde minha meia de muitos anos, tentando achar ânimo para comprar meias com elásticos ou forma de ganhar dinheiro e comprar sapatos. Pegando ônibus. Tentando tirar coisa que preste dessa cabeça para encher algumas linhas, falta sinceridade, papel e mão para escrever.

Pegando ônibus. Ontem, o senhor com forte bafo de cachaça, no ônibus cheio me perguntou se eu tinha pai – Sim, tenho – já esperando alguma longa conversa idosa e lembranças de juventude – Então vai roçar essa perna nele, entendeu? Sou velho mas tenho muita hombridade, trabalhei a vida inteira, vai roçar essa perna naquele veado, entendeu? – calei, mas sentia que ele ainda me olhava, ele começou outro diálogo qualquer com o cobrador e me perdi na tristeza da aspiração e no medo de ter setenta anos e ver os pêlos das falanges dos meus dedos brancos e ter de engolir cachaça pura pra manter amortecida a cabeça velha e não lembrar que não houve a vida que eu esperava ter, a vida que eu via todos terem, que esperavam que eu tivesse. Não ter de amargar a falta de lugares no ônibus, e sentir que é o único contento de alguém que já viveu setenta anos espera.

Escrevo com muitas vírgulas mal postas textos ruins de caráter lúgubre fingido e vadio. Da morte inexistente do covarde. E observo contidamente desesperado a aparência emética de minha mesa imunda, e já com náusea o cheiro do resto frio do café no copo de requeijão.

Levanto para ir ao banheiro enfiar a cara na pia e acordar e limpar remelas de dias sem sono e tentativas de escrever, frustração e péssimos resultados. Olho o espelho, o rosto molhado, a água que não fixa na pele oleosa, e os vincos nos cantos da boca que dão esse semblante taciturno mesmo na felicidade. Acho que vou me frustar até o dia em que aprender a fechar crônicas vagabundas sem ter de alongar com banalidades desse cotidiano mecanizado e vazio.

23

de
março

Cura do milagreiro

Não conseguia entender porque Chico era forte daquele jeito. Forte por dentro, não tinha furúnculo nem gripe, porque por fora era couro e osso. Ele me olhava e ria – Gente da cidade quando anda descalço e pega sereno é igual chopim-vira-bosta quando a gente enfia na gaiola, dá linhaça, ele tonteia, morre -  e ria mostrando os três dentes da frente que lhe sobravam na boca larga equilibrada no queixo fino.  

Eu era pequeno e ouvia a vó dizer que gente que come terra tem sangue grosso e escuro, difícil era a tuberculose pegar. Queria perguntar pro Chico se terra tinha gosto bom, mas podia ser mentira da vó. E ele ria, e levantava da cadeira de palha, e saracoteava com o rádio.

Começo de inverno, o ventinho entrava por entre os botões da camisa e eu já sucumbia à cama. Era xarope, pastilha, mel-de-abelha-real, três dias de atestado. E lembrava das conversas que escutava na casa do Chico – Toma caldo de sopa de palma atrás da porta que sara até soluço – Se fosse dono de fábrica de remédio eu contrataria alguém só pra ouvir as conversas naquela casa.

Me ligaram ontem, eu estava tomando banho, fazendo a barba. Alegria é morar sozinho e ter um rádio de pilha pra pôr no banheiro.

- Alô, Valmir? Aqui é o Saulo, primo do Chico. Escuta, tem que vir pra cá, tu vai morrer de tristeza. É, aconteceu, eu nunca que imaginava.

Cinco horas e meia de ônibus, e uma coxinha com sukita na parada. A casinha era simples que me dava pena, mas o pessoal devia é ter pena de mim com aquele rosto amarelado de luz de escritório. Uma fila que andava lenta entrava numa das portas, passava ao lado do finado, fungava o cheiro forte de cravo e lírio e saía meio que chorando, meio agradecendo o descanso merecido.

Dentro do caixão ele parecia o de sempre, cheio de saúde, de pele grossa intransponível. Segui pela fila atrás das velhinhas curvadas que pareciam passar dos 150 anos, o coração apertado, fui cumprimentar os parentes, cheguei até o Chico que chorava contido do mesmo jeito que ria com os três dentes.

- Vô Abelardo que era o mais forte da família, não tinha nem osso ruim de velho ainda, mas não inventaram chá pra desviar a vontade do que cria. Dormiu na rede com a dentadura, sorrindo, não acordou.

17

de
março

A parte mais difícil é dar o título

           Ele acendeu um cigarro e se jogou na poltrona de corvim. Eu sempre achei que esse ritual cumprido religiosamente quando ia lá em casa lhe dava um ar de seriedade. Ele tragava, e me encarava, com muita sinceridade no olhar em meio àquela fumaça toda.

- Não gosto do que tu escreve, é ruim.

Na verdade eu mesmo nunca gostei do que escrevo, mas expliquei pra ele que minha mãe achava formidável, ela mostrava para as amigas no trabalho, os amontoados de linhas do filho boca-suja. Mesmo que ela só goste desses livrinhos de romance água-com-açúcar brochura pra passar o tempo.

- É verdade, teus contos são uma bosta, fraco e sem nexo.

Desde que comecei a escrever eu escrevo contos, mas sempre me auto-intitulei cronista, sempre quis ser cronista, meus amigos achavam que eu era cronista, mas acontece que só escrevo contos, e fracos. É um tanto desanimador escrever crônicas pra ficar lendo sozinho no quarto. Talvez se eu publicasse essas porcarias num jornal de ocorridos sanguinolento do interior eu me desse mais o respeito, ou ele me respeitasse mais.

- O Vinícius ia rir da tua cara!

Na verdade eu não ligaria se o Vinícius me achasse medíocre, porque com certeza ele viria rindo com uma garrafa de whisky na mão e cairia antes de me falar qualquer coisa.

Ele continuava baforando a fumaça na minha cara e me contando como a irmã dele de sete anos faz redações na escola melhores que aquilo. Eu levantei e coloquei a água no fogo para fazer um café, antes de a água começar a ferver ele sugou uns dois centímetros do bastãozinho de fumo incandescente, amassou no cinzeiro, ainda me encarando com aquela seriedade e sinceridade que dão um certo medo.

- Falou cara, tenho que buscar minha irmã.

- Até.

Ele foi embora, eu fiquei, enchi o copo de café, adocei muito, horrível, muito fraco e melado. Peguei umas crônicas do velho Braga pra estudar, meus amigos ainda acham que eu sou cronista.

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