24
de
junho
A respeito do dia
Nesses dias eu sento no beiral da janela que dá pra sacada, e a cidade me canta mais fria e cinza. Já faz uma semana desde que ela se foi, e eu, eu fiquei, agarrado ao violoncelo, desesperadamente dando arcadas no escuro, entregando todo meu amor, que agora é só dele, na forma de um som esganiçado.
Já faz uma semana que ela se foi, mas sobre mim sobrecarrega-se uma nuvem de meses de angústia, pesada e negra nebulosa que me encharca sem nunca ter chovido.
Sentado na sacada misturo-me ao dia cinza e frio que agora começa a tomar a cor amarelada das lâmpadas dos carros e postes. Carros cujo som intermitente de seus motores e buzinas me fazem distraído e alheio ao disco do segundo concerto para piano de Rachmaninoff que coloquei sem intenção alguma pouco antes de aqui estar. Distração de um emaranhado de sons e lembranças como um semi-transe que me levaram a deixar a caneta cair lá embaixo, na calçada agora já colorida do amarelo da noite urbana.
Com uma caneta de outra cor presto-me a terminar, como tudo, de maneira rápida e confusa para depois esquecer, dela que se foi, da caneta que certamente não estará mais lá e do fim, agora que fecho a janela e esqueço a nuvem cinza perdida ao cinza lá de fora.
Curitiba, 24 de junho de 2007

